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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Geração ECA

- “As ações criminosas estão cada vez mais violentas e cruéis” – comentou um professor à um grupo colegas na sala dos professores, face a mais um crime hediondo que foi noticiado. Um desses colegas continuou: - “Isso é pouco, as elites abusaram e exploraram os pobres até que eles reagissem assim.” Alguns ignoraram, alienados por uma jornada absurdamente extenuante, uns poucos, particularmente, ficaram bastante desapontados com aquele colega professor, que certamente reproduz essa opinião aos seus alunos, dando uma justificativa ao injustificável. Arrastar uma criança no asfalto porque ela ficou presa no cinto de segurança após um assalto por mais de três quilômetros, atear fogo à dentistas porque eles não tinham dinheiro ou atirar em quem não reage à um assalto não é exatamente uma ruptura do status quo das classes sociais, é barbárie.
Se antes, essa postura de vitimizar o bandido era um discurso de alguns ultra-esquerdistas nos meandros das Academias, que buscavam sempre o lugar comum da exploração do proletariado pela burguesia, às raízes escravistas e latifundiárias do nosso período colonial, hoje é um discurso oficial, uma política pública, uma prática do Estado.
O assistencialismo tornou-se regra, gerando dependência e acomodação. Não existem contrapartidas, cobrança por deveres, apenas direitos. O “nóis tem direito” virou um mantra da plebe ignara, intercalado com alguns “o governo tem que dá”. Ora, quem recebe, sem ter feito por merecer, não dá valor à isso. O mérito tornou algo dispensável, e você nem precisa ser um “companheiro”, basta fazer parte do bloco da situação, que você será “aproveitado” para algum cargo, alguma função. Basta olhar os currículos dos vários ministros e secretários nacionais: poucos têm perfil técnico, ou mesmo formação mínima para o bom exercício em suas pastas.
Mas esse abismo entre exigir seus direitos e querer cumprir seus deveres não surgiu da noite para o dia, foi o resultado de uma erosão, lenta, gradual e contínua nas exigências e regras que estavam estabelecidas às crianças e jovens. Com o dedo em riste de alguns psicólogos, que afirmavam que a forma de criação e educação era a causadora de traumas e neuras, os nossos congressistas aprovaram uma Lei extremamente leniente, e, por vezes, inócua, com os maus-feitos, com os abusos e com os possíveis crimes feitos por esses jovens. Aliás, criança ou jovem não comete crimes, comete “Atos Infracionais”. Então, uma pessoa que morreu alvejada por um jovem menor de 18 anos, não é assassinada, é “ato-infracionalizada seguida de morte”, ou então uma mulher, que é espancada e forçada a fazer sexo com um menor de 18 anos, não é estuprada, é ato-infracionalizada sexualmente.
Esse imenso destemor, essa absoluta certeza na impunidade preenchem esse abismo entre os direitos e as obrigações, que fica cada vez maior, erodido pelos efeitos e práticas do Estatuto da Criança e do Adolescente. Esses jovens menores de 18 anos que estão praticando esses crimes bárbaros, ou, como está no ECA, esses atos infracionais bárbaros, são frutos dessa Lei.
E se essas crianças e jovens não são cobrados de seus deveres e nem sofrem consequências por seus erros, como deverá funcionar o local que deve prepara-los para a vida adulta, para a prática da cidadania? As escolas estão isoladas, abandonadas pelo poder público, que gasta mal os recursos destinados à educação, pelos pais, que, cada vez mais se isentam de responsabilidades, e pela sociedade, anestesiada por Bolsas e Auxílios que os reduzem à parasitas do Erário, à massa de manobra, daqueles mesmos que redigiram e aprovaram o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Em fevereiro de 2014 teremos, em Brasília, a realização da II Conferência Nacional de Educação. Entre maio e junho deste ano, realizaram-se Conferências Livres e Conferências Regionais preparatórias às Conferências Estaduais. O Ministério da Educação elaborou um documento-referência com sete eixos temáticos, como forma de subsidiar as discussões e propostas elaboradas nessas fases preliminares à II CONAE. Em nenhum momento, em nenhum dos sete eixos temáticos de discussão, o documento-referência para a Conferência Nacional de Educação, estimula, recomenda, sugere, institui ou mesmo cita sobre o protagonismo juvenil, estímulo à autonomia ou ao empreendedorismo. Bastante emblemático, e reforçou o entendimento sobre a intenção de manutenção dessa massa dependente de bolsas e auxílios, acomodada e altamente manipulável.
Por enquanto, a classe média vem suportando os ataques provenientes de várias frentes: acharcada por impostos e taxas que sustentam as bolsas e auxílios usados como entorpecentes às massas; vítima preferencial de crimes violentos, praticados por uma massa de jovens com sérias deformidades de caráter, criados sob a proteção do ECA e; acusada pelos ultra-esquerdistas, agora infiltrados em todos os níveis de Governo, de promover a luta de classes, por não querer entrar na onda assistencialista, por preferir estudar, trabalhar e conquistar uma vida melhor por seus méritos, sem as benesses ou favores do Estado.
Há, no limite, um acordo tácito entre a massa e os atuais mandatários. O povão fica satisfeito com as migalhas, pois tem a impressão que “estão ganhando na moleza” um “dinheirinho” e assim, votam nesses governantes, tolerando suas práticas corruptas, os superfaturamentos e desvios de verbas, pois, no fundo, se fossem com eles, também se locupletariam. No pensamento simplório dessa massa, são perceptíveis grandes falhas morais e éticas. Parece ser um círculo vicioso, bastante difícil de quebrar.

Portanto, não tenhamos ilusões com a projeção do nosso país, como “Emergente”. Isso se dá não pelo desenvolvimento ou melhoria nos fundamentos de nossa economia, e sim pela decadência ou desgaste observados nas economias dos outros países. Não temos planejamento, investimentos estruturais, debates e discussões com o rigor necessário, se temos boas iniciativas, falta-nos a “acabativa”, o Congresso Nacional, as Assembleias e as Câmaras são subservientes aos chefes dos executivos, pois querem que suas emendas e projetos tenham recursos liberados e que seus apadrinhados sejam nomeados à algum cargo, enfim, não somos um país sério. Continuaremos, pelo menos, nos próximos 50 anos, como um país reprodutor de tecnologia, corrupto, violento e sem políticas efetivas de combate à pobreza, se não houver profundas mudanças, não apenas nas nossas leis, mas, principalmente, na nossa postura como cidadãos, que sabem fiscalizar e cobrar e, sempre quando necessário, mudar os governantes inaptos.

domingo, 9 de setembro de 2012

O Silêncio e a Inação

Quando da formação do Mercosul, em 1991, o bloco econômico que se embrionava parecia um novo capítulo na relações políticas, sócio-culturais, mas principalmente econômicas no nosso continente e parecia que, enfim, o Brasil mudava sua posição “de costas” para a América do Sul e de antagonismo com a Argentina. Essa época foi de mudanças dramáticas no cenário geopolítico mundial, com a derrocada de quase todos os governos comunistas, e esfacelamento de alguns países, como Alemanha Oriental, unificada à Alemanha Ocidental, Tchecoslováquia, a brutal desagregação da Iugoslávia e o melancólico fim da União Soviética.
O Brasil parecia na vanguarda geopolítica, assim como os Estados Unidos, que apressaram a adesão do México ao seu NAFTA com o Canadá, ou Alemanha e França liderando um aprofundamento da integração na Europa, com o Tratado de Maastrich e até mesmo a Rússia, que abraçando o capitalismo, tratou de manter sob sua órbita econômica, várias antigas repúblicas do período soviético, através da CEI.
Parecia. O transcorrer da década de 1990 ensejou ações tímidas do Brasil em direção à integração com seus parceiros “mercosulinos”. Dois fatores obstaculizavam: As crises financeiras e o protecionismo argentino. O ápice desse período foi em 1999, quando o governo portenho decretou moratória, depois de uma aguda crise política que resultou em uma verdadeira “dança das cadeiras” com cinco presidentes da república se sucedendo em menos de um mês.
O início do novo milênio trazia esperanças de um novo arranjo, com novos governos, com forte apelo popular, no Brasil e na Argentina. Tanto que, começaram as negociações para a adesão da Venezuela ao Bloco e Bolívia, Peru, Equador e Chile tornaram-se membros-associados, e um Parlamento foi instalado.
O Parlamento do Mercosul, com sede em Montevidéu, instalado em dezembro de 2005 teria inicialmente, 18 representantes vindos de cada um dos congressos nacionais dos  quatro países-membros, ou seja, nessa primeira fase, sua representação seria paritária. Seus substitutos seriam, supostamente, eleitos por voto direto, e com representação proporcional ao tamanho das populações dos países que representassem. O Parlamento do Mercosul seria uma caixa de ressonância dos desejos, anseios, necessidades e das ideias das populações dos quatro países.
Passamos por duas eleições gerais desde então e ainda temos deputados federais e senadores que, além das suas funções de representantes de seus estados junto ao congresso brasileiro, acumulam a função de representantes dos interesses brasileiros no Parlamento do Mercosul, e pior, sem serem escolhidos pelo povo para isso.
De certo, o Brasil precisou negociar com os outros “sócios” do bloco, pois, naturalmente, haveria uma enorme disparidade entre o número de parlamentares de cada país, uma vez que o Brasil possui quase quatro vezes a população Argentina, Uruguai e Paraguai somadas.
Pois bem, se o Parlamento está instalado desde 2005, e diversos congressistas de vários partidos políticos, por ele passaram, qual a dificuldade de elaboração de um plano de atuação parlamentar por parte dos partidos políticos? Ao percorrer os sites de todos os partidos brasileiros que possuem esse canal de informação não existe uma única linha, um mísero link, que destaque a atuação dos parlamentares do partido em Montevidéu, ou mesmo que informe os planos, ou intenções que o partido tem acerca da defesa de interesses brasileiros no bloco.
Falar então em formação de blocos parlamentares supranacionais parece fora de propósito.
Esse imenso nada faz par com o silêncio retumbante quando se questiona qualquer partido político diretamente. Simplesmente não se obtêm respostas, seja quando se interpela à direção partidária, seja quando se procura as fundações e institutos de pesquisa política, que os partidos são obrigados a manter. O mais comum é não conseguir nenhuma resposta. Raras vezes, seu pedido é encaminhado ao parlamentar que estiver, naquele momento, indicado para o Parlamento e aí, ocorre a fulanização do processo, quando esse parlamentar envia o que ele produziu, o que ele apresentou, o que ele defendeu.
O que é essencial aqui é conhecermos o que os nossos partidos políticos pretendem em relação ao Mercosul, pois serão esses partidos políticos que determinarão a sequencia dos candidatos numa lista nacional pré-ordenada, como consta no Projeto de Lei que regulamenta a eleição direta para o Parlamento do Mercosul. Estaremos à mercê dos partidos, os mesmos que não possuem propostas, projetos, informações ou transparência as suas ações para o Mercosul. Afinal, quais os critérios usados para a indicação dos atuais representantes brasileiros no Parlamento do Mercosul? Essa falta de propostas e de discurso permeia todas as agremiações partidárias, desde os partidos da esquerda mais radical, passando pelos de centro-esquerda, centro, centro-direita, até os da direita mais selvagem.
Estudo as relações de integração do Mercosul desde 1996, e busco fazer comparações com outros blocos econômicos. Aqueles que são mais fortes institucionalmente, são aqueles que têm espaços de representação popular fortes e relevantes. O Parlamento do Mercosul, infelizmente, está longe desses predicados atualmente. À começar pela sua estrutura, que não lhe confere poder de aprovação ou regulamentação de acordos, cartas e tratados, passando pela atuação dos parlamentares, normalmente medíocre, e atingindo o “fundo do poço” com a absoluta inoperância dos partidos políticos na discussão de propostas e projetos para o bloco.
Seremos obrigados a participarmos dessa eleição. Mais do que uma obrigação, o direito ao voto foi uma conquista da qual não podemos prescindir, e a nossa história recente já nos deu exemplos de como as coisas se encaminham quando esse direito é negado. Não podemos ser negligentes como a democracia nem permitir que sejam e os partidos políticos tem se mostrado assim aos eleitores/cidadãos. Não podemos deixar que a democracia representativa continue a ser desacreditada, sob pena de não conseguirmos construir uma efetiva democracia participativa.
Rogo à todas as tendências partidárias dentro de todos os partidos políticos que organizem propostas e projetos, para a atuação parlamentar de nossos futuros representantes no Parlamento do Mercosul, em Montevidéu, para que possamos dinamizar os processos de integração de infraestrutura de transportes, de energia, de sistemas bancários, de regras aduaneiras, de regras trabalhistas, que repercutirão em integração e desenvolvimento econômico e em políticas comuns de educação, saúde, cultura, lazer que certamente trarão um novo olhar e um novo agir dos cidadãos mercosulinos e sul-americanos, irmanados, não sob um mesmo governo, como buscou Bolívar, mas sob um mesmo ideal.

Esse artigo foi publicado no Blog do Diário de São Paulo http://www.diariosp.com.br/blog/detalhe/11907 e no Fórum do Leitor, do site do Estadão http://www.estadao.com.br/noticias/geral,forum-dos-leitores,927647,0.htm

domingo, 3 de junho de 2012

Entendendo a Geologia de Guarujá

A partir das observações feitas durante a visita técnica em 25/04, os alunos dos Primeiros Anos do Ensino Médio da ETEC Alberto Santos Dumont, de Guarujá puderam refletir sobre as informações e conteúdos aprendidos em Geografia, Biologia e História, durante as aulas.

Sob a minha supervisão, elaboraram uma atividade de localização dos lugares visitados, com a pesquisa das características, apresentação das amostras de sedimentos recolhidos, além de um resumo sobre as características geológicas de Guarujá.

Cada uma das classes - 1M1, 1M2 e 1M3 - elaborou um mapa, de acordo com as suas observações. Além da pertinência das informações pesquisadas, busquei avaliar a habilidade de trabalho coletivo das turmas, uma vez que o trabalho era de toda a classe.

Fiquei muito feliz com os resultados, pois percebi que nas três classes ocorreu uma interconecção das informações estudadas em Geografia, Biologia e História, e por isso, preciso saudar das Professoras Ângela Lisbôa e Renata Amorim.

Trabalho do 1M1, com a apresentação das imagens e das amostras, antes da colocação das outras informações.

Trabalho do 1M2 finalizado, com as imagens, amostras, resumos e pesquisa sobre geologia.

Fases da construção do trabalho, com os alunos do 1M3.

Turma 1M3 junto ao trabalho finalizado.

A maior parte dos alunos participou da elaboração do trabalho, e ficaram bastante satisfeitos como o resultado atingido. A avaliação dos resultados fui bastante positiva, tanto do ponto de vista da pesquisa realizada com da cooperação e do trabalho coletivo.

Como estamos inseridos num porcesso pedagógico, o trabalho não se encerra, pois é um dos alicerces para os estudos e pesquisas para a Semana do Meio Ambiente e para a Feira de Ciências.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Visita Técnica em Guarujá

Na manhã de quarta-feira, 25 de abril de 2012, os alunos dos Primeiros Anos do Ensino Médio ETEC Alberto Santos Dumont, de Guarujá.

Visitamos várias praias da cidade, onde eles fizeram anotações e recolheram amostras dos sedimentos.



As Professoras Angela Lisboa, Marília Canabate e Edenise Rosa, a Coordenadora Pedagógica Márcia o Professor Luiz Vieira e eu acompanhamos as turmas.



Além das praias, subimos o Morro do Maluf, entre as praias da Enseada e das Pitangueiras, onde vimos o Marco Zero de Guarujá.


Também paramos no Shopping Vila Jequiti, ao lado do Hotel Sofitel Jequitimar, entre as praias de Pernambuco e Mar Casado.


O resultado dessa Visita Técnica virá com a pesquisa complementar sobre a geologia da cidade, e resultará na elaboração de um mapa ilustrado de Guarujá.

Agradeço à Direção da ETEC, às Coordenações Pedagógica e do Ensino Médio, aos colegas professores e à todos os alunos pela colaboração. 

domingo, 17 de abril de 2011

Parlamento do Mercosul – Mais um ano de silêncio.

 


Em dezembro de 2009 escrevi sobre a paralisação do processo de integração sul-americano. Parecia-me emperrado. Chegou-se a um ponto em que as normas e entendimentos estabelecidos no âmbito do Mercosul simplesmente não são postos em prática. Uma análise apurada demonstra isso, menos da metade do que foi acordado entre os sócios do Bloco foi internalizado, desde a assinatura do Protocolo de Ouro Preto, em 1994, quer dizer, só metade das normas, acordos, protocolos, minutas estabelecidos por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e mais recentemente, Venezuela foram devidamente adotados e postos em prática.
Mais de um ano se passou desde a divulgação do artigo Parlamento do Mercosul: Utopia ou Descaso por vários sites e blogs pela Internet e pouco avançou-se sobre isso. Ainda não foi criada nenhuma comissão no Congresso Nacional para trabalhar especificamente sobre a internalização das normas mercosulinas.
Algumas vozes já começam a defender a extinção do Mercosul, como se isso fosse a solução para a falta de articulação política dentro dos governos. Mas temos que considerar, particularmente, dois fatores: O Mercosul é inspirado na organização do antigo Mercado Comum Europeu, que demorou 40 anos para se articular, até chegar em um nível de entendimento que proporcionasse uma base mínima, mas confiável, para o estabelecimento da União Européia, e nós, na nossa terceira tentativa sul-americana, temos pouco mais de 15 anos, desde a assinatura do Tratado de Assunção, que criou o Mercosul. Outro fator é o engessamento e instabilidade que a Constituição Brasileira dá a todos os tratados internacionais, que são estabelecidos e revogados através lei ordinária, o que impossibilita agilidade ao processo de integração e não torna este acordo internacional peça supra-constitucional, a exemplo do que temos nas Constituições da Argentina e do Paraguai. Mesmo com a assinatura brasileira na Convenção de Viena do Direito dos Tratados em 2004, com o inexplicável atraso de 37 anos, ainda não temos movimentações vigorosas para a regulamentação no Brasil desse importante instrumento de convergência legal internacional, seja do Congresso Nacional, seja do Poder Judiciário.
Urge uma nova revisão constitucional, que não fique apenas em questões superficiais, mas que tipifique e dê autoridade aos processos de integração latino-americanos, e não seja genérico e superficial, como no atual parágrafo único do artigo 4o da nossa Carta Magna.
Deve-se constatar também a pouca participação dos Poderes Judiciários dos 5 países do Mercosul no processo de ajustamento e convergência das legislações nacionais às normas e acordos do Bloco. Um enorme avanço aconteceu com o estabelecimento do Tribunal de Apelações, criado pela assinatura do Protocolo de Olivos, mas os diálogos que constroem esses acordos têm sido, em geral, são feitos por tecnocratas dos ministérios, sem uma efetiva participação dos agentes públicos do poderes legislativo e judiciário.
Mas, o que atualmente torna o Mercosul pouco ou muito pouco relevante no cenário político nacional e internacional é a falta de participação popular no cotidiano e nas decisões do Bloco. É desapontador a indefinição brasileira sobre a realização de eleições diretas para o Parlamento do Mercosul. Todos os 18 representantes brasileiros fracassaram, pois não conseguiram construir uma proposta para a eleição direta, não conseguiram apoio dos presidentes da Câmara Federal e do Senado, nem conseguiram motivar seus partidos à discutir e se engajar sobre o tema. Esses parlamentares deveriam ter lutado muito para que seus partidos desenvolvessem propostas e projetos, nos respectivos Institutos de Estudo e Pesquisa Política ou nas Fundações Partidárias para esse fim. Afinal, seria justo reconduzi-los, na possibilidade de suas reeleições como Deputados Federais e Senadores, ao Parlamento do Mercosul?
Dispomos de excelentes organizações para fundamentarmos as propostas e assessorar as atuações dos nossos parlamentares em Montevidéu, como o Instituto Rio Branco, a UnB, e até o Congresso, tem a disposição o Instituto do Legislativo Brasileiro, o ILB.
Qual o interesse em não haver eleição direta no Brasil para o Parlamento do Mercosul em 2010?
Será que não poderíamos desenvolver uma eleição simultânea com o Uruguai e a Argentina em 2011, no Dia do Cidadão do Mercosul?
Houve uma consulta jurídica ao Tribunal Superior Eleitoral, solicitada pelo Deputado Federal Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), sob a relatoria do Ministro Arnaldo Versiani, que faz duas perguntas simples:
I - A publicação de lei que regulamenta a eleição de parlamentares em 2010 para Parlamento do Mercosul deve também obedecer ao que preceitua o art. 16 da Constituição Federal, ou seja, tenha a sua publicação com anterioridade de um ano antes da data marcada para referida eleição, ou essa exigência não se aplica porque não se trata de lei que altera o processo eleitoral e sim constitui norma que está sendo instituída pela primeira vez.
II - Na suposição de que a anterioridade prevista no art. 16 da Constituição Federal não se aplique, qual será a data limite no Calendário eleitoral do TSE para que a nova lei regulamentadora esteja devidamente publicada, a fim de viabilizar em tempo hábil a expedição das instruções do TSE aplicáveis a eleição dos parlamentares do Brasil no Mercosul?
Não houve notícias de uma resposta em tempo.
Mas não podemos deixar de lado a atuação do Poder Executivo nesse assunto. Não que a Presidente da República deva interferir no Poder Legislativo, pois isso feriria o princípio da harmonia e independência entre os poderes, mas seu empenho e interesse é fundamental para mobilizar sua base de apoio no Congresso Nacional.
As cidades da Baixada Santista têm especial interesse no processo de integração sul-americano e suas autoridades (executivas e legislativas) deveriam dar mais importância à essa discussão, pois a movimentação de cargas em nossas rodovias e porto, a atração de investimentos, a possibilidade de intercâmbio cultural e acadêmico e o recebimento de turistas movimentam significativamente nossa economia.
O caso de Guarujá é emblemático: Em 2004, 18% dos visitantes da cidade eram provenientes do “Cone Sul”, especialmente argentinos. Hoje menos de 8% dos turistas em Guarujá vieram de países vizinhos ao Brasil. Os investimentos em empresas de Guarujá também encolheram, e pouco disso é culpa dos problemas político-policiais que assolaram a cidade nesses últimos anos. O fato é que poucos sabem o que é o Mercosul e uma quantidade menor ainda de pessoas percebeu o potencial desse bloco para o desenvolvimento econômico da Baixada Santista, do Estado de São Paulo e do Brasil.
Outros exemplos regionais poderiam ser dados, especialmente para as regiões Sul e Sudeste do Brasil e recentemente, para parte da região Norte, desde o ingresso da Venezuela no Mercosul.
Dada a importância do Parlamento do Mercosul no processo de integração política, econômica, sócio-cultural, estrutural e jurídica sul-americana, e a necessidade de que o Brasil não tenha prejudicado o seu comércio, seus setores produtivos e seu desenvolvimento com concessões clientelistas aos países membros do Bloco não deveriam os atuais Deputados Federais e Senadores, que já têm uma enorme responsabilidade por representarem seus Estados e suas populações, mais essa tarefa.
No entanto, mesmo com a ampliação do número de representantes brasileiros, de 18 para 37, estes serão escolhidos entre parlamentares da Câmara Federal (27 cadeiras) e do Senado (10 Cadeiras) indicados pelas lideranças dos partidos ou blocos, de acordo com o coeficiente partidário. Um “prêmio” para a inação dos congressistas brasileiros.
A comissão de Relações Exteriores e Defesa aprovou o parecer com substitutivo do Projeto de Lei 5279/2009 do deputado Carlos Zarattini (PT-SP) que estabelece normas para eleições de Parlamentares do Mercosul, que estão previstas somente para outubro de 2014. Segundo esse projeto, teríamos um suposto fortalecimento da estrutura partidária, pois a eleição para o Parlamento do Mercosul se daria através de listas pré-ordenadas e fechadas de caráter nacional, ou seja, não teríamos o voto “nesse” ou “naquele” candidato, o eleitor votaria no partido, sabendo a ordem que os representantes serão eleitos.
Mas, uma questão legítima se formula: Se não houve nenhuma mobilização de nenhum partido político em relação a qualquer assunto do Parlamento do Mercosul, por que colocar tanto poder nas mãos dessas lideranças partidárias? Corre-se o risco dessas lideranças indicarem para as primeiras posições dessas listas pessoas descomprometidas, desarticuladas, que pouco ou nada conhecem sobre o Mercosul e todo o processo de integração, como moeda de troca, tal qual acontece, por exemplo, em muitas indicações para suplentes de Senadores, desestimulando assim aqueles que estudam com seriedade e profundidade os mecanismos de integração e representação do Mercosul a se colocarem para a disputa eleitoral. Embora pareça uma questão interna de cada partido, certamente repercutirá na qualidade das “cabeças” das listas que forem apresentadas.
Precisamos elaborar projetos e propostas sérias, em que vários cenários sejam contemplados, a fim de comprovarmos nossa competência e mostrarmos a pertinência desse tipo de processo eleitoral.
Precisamos eleger homens e mulheres que além de nos representarem e aos nossos interesses, sejam verdadeiramente comprometidos com o processo de integração latino-americano, que conheçam as realidades e tenham propostas para atingirmos juntos, os objetivos de desenvolvimento econômico e social, para todos os irmãos e hermanos latino-americanos.